Thursday, September 23, 2004

A Idade de Cristo

A Idade de Cristo
Avery Veríssimo

Ar. Só o valorizamos quando nos falta. Meu peito dói. A respiração é curta. Tenho febre. Náuseas. Encolhido numa cadeira de rodas, tento respirar. As costelas esmagadas por uma pressão abissal. Os pensamentos em espasmos. Tento me concentrar, saber como vim parar aqui. Olho em volta. Um corredor de hospital. Odeio hospitais. Frase feita, odiar hospitais. Ofende-se a quem trabalha neles. É como me dissessem odiar universidades. E há quem o diga. De verdade. Ar.

Começo a lembrar. Árvores passavam pela janela. Minha mulher dirige, pergunta se estou bem. Tenta me manter acordado. Entro cambaleando pela porta do Hospital. Digo à recepcionista que não consigo respirar. Numa maca, deito e espero uma eternidade. Um médico me faz perguntas. Colocam-me numa cadeira de rodas. Tenho frio. O corpo dói. Sensação de desmaio. Parece um ataque de pânico. Preciso sobreviver. Para contar.


Hospital Santa Lúcia
When i was i child i had a fever
My hands felt just like two baloons

Parecia uma simples gripe. Mas os dias passaram, a gripe, não. Trabalhava normalmente, tomava mel com limão, analgésicos, antitérmicos. Estranho catarro amarelo. Talvez fosse a cor da influenza no Oeste de Minas.

Dias depois o muco amarelo tingiu-se de sangue. Achei que era o tempo seco. Nesta época do ano a umidade do ar é muito baixa e pode romper os vasos sangüíneos das narinas mais sensíveis. Meus lábios haviam ressecado há dias, situação que atribuí à secura da atmosfera. Usei protetor labial, mas não adiantou. Mastiguei pastilhas de hidróxido de alumínio, talvez fosse o estômago. Não tive tempo de saber.

Na sexta-feira deixei o trabalho com febre, pensando que durante o fim-de-semana estaria recuperado. Cheguei muito cansado em casa, uma rotina nas duas últimas semanas que atribuí à combinação de estresse e gripe. Minha mulher e meus filhos dormiam. Tirei os sapatos. Zapeei 55 canais, tomei vinho. Desisti de lutar contra o cansaço e adormeci. Acordei às 5 da manhã com a sensação de ter sido terraplenado. Não pode ser uma simples gripe.

Passei a manhã me contorcendo numa febre ígnea. Desta vez não parecia divertido, eu que gostava de ter febre. Febre dá barato. Quando criança curtia os estados febris com pequenas alucinações e risadas sem propósito. Na adolescência imaginava a batalha do corpo contra a enfermidade e ria, ria. 

Na vida adulta a febre é fardo difícil de carregar, mas sempre deixei os antitérmicos para último caso, quando está difícil suportar. Este parece ser um momento adequado. Passo a manhã me sentindo mal. Recuso-me a comer porque tenho sono. E febre. E dor.

Ao meio-dia volto a dormir. Acordo duas horas depois, lasso. Os músculos parecem não responder. Pernas e braços doem com violência, lembrando uma doença tropical que peguei na Amazônia anos antes. A respiração tornou-se curta e rápida, quase fora de controle. Sinto frio no calor da tarde de sábado. Minha mulher preocupa-se:

- Você não quer ir ao médico?
- Agora não. Vai passar. Parece dengue. Tinha uns mosquitos no banheiro da faculdade.

Não passou, aumentou. Tomei banho com esforço, comi um pouco. O cansaço e a febre aumentaram. Às 3 e meia me arrasto até a sala e peço uma ambulância. Vou estrear o plano de saúde em grande estilo, penso. Evito médicos e unidades de emergência até o último instante, ela sempre soube. Deve achar que estou péssimo. E estou. Estou. Sem. Ar.
A ambulância informa que só chegará em 40 minutos. Desisto de esperar. No elevador, sinto náuseas. Meu filho brinca. Entro no banco do passageiro com pesadelos cardíacos. O peito começou a apertar. As costelas parecem ter se fechado. Os pulmões tentam inflar por entre as vértebras. Parece um enfarte. Preciso de ajuda.

breathe
breathe in the air

No corredor, numa cadeira de rodas, aguardo o momento de fazer radiografias dos pulmões. Um funcionário do hospital passa fumando. Será alucinação, um funcionário de hospital fumando no local de trabalho? Meu peito dói. Respiro em pequenas porções, um gemido a cada intervalo. Sou conduzido a pé até a máquina de raios X. A máquina dispara e a radiação me atravessa o tórax e o crânio. Logo me dirão o que tenho. Deve ser pneumonia, malária, dengue.

Desço até uma maca e espero. Em poucos minutos chegam colegas de trabalho tirando onda para me acalmar. Minha pressão está a 16 por 10 e os batimentos cardíacos a 120 por minuto. O relatório médico indica que o paciente chegou em quadro de dispnéia e prostração geral. Foram recolhidas amostras de sangue e urina. As radiografias chegam logo depois.

 - Você tem pneumonia e sinusite. Mas encontramos duas coisas mais sérias: o seu mediastino parece estar alargado e há um pequeno aumento da massa cardíaca. Claro que devemos examinar com cuidado. Pode ser apenas a sua compleição física, diz o dr. Juliano.










Apesar de não entender muito do jargão, parece ser coisa séria. Minha mulher ensaia um desmaio, enquanto meu filho corre, grita e brinca com equipamentos médicos. O médico diz qualquer coisa sobre visão preliminar, uma necessidade de verificar novamente se o aumento no tamanho do coração era real, para confirmar ou descartar suspeitas, etc.

- Meu avô morreu disso, falei.

Sim, o velho Antônio Veríssimo morreu de coração grande, na década de 1980. Vi meu pai chorar pela primeira vez com a notícia, que recebeu dias depois do acontecido. O avô que nunca conheci já havia sido sepultado. Jamais ouviria suas histórias de avô, jamais tocaria seus cabelos brancos ou conheceria a antipatia que lhe dava fama.

Meu avô estava morto. Havia outros casos na família? Minha sobrinha, Fabrícia, nasceu com sopro no coração e convive com ele até hoje. De minha parte convivi com uma taquicardia inexplicada durante toda a adolescência. Disseram, na época, que era fase de crescimento. As palpitações diminuíram depois dos 21, mas ocorrem até hoje, uma, duas vezes por ano. Talvez eu me tornasse cardíaco aos 33 anos e precisasse conviver com isso. Talvez não durasse muito e precisasse escrever cartas para meus filhos, ficar próximo dos meus pais e irmãos. Fui tomado por uma estranha calma, apesar da dor. Morrer deve ser uma confortável omissão, com conseqüências para os vivos

Fico sob os cuidados do cardiologista mais renomado da cidade graças a meus contatos burgueses. Os papéis são providenciados para a transferência. Sou levado de carro para outro hospital, arfando.

Hospital São João de Deus

Estou numa maca aguardando a chegada de um médico. Fecho os olhos e me sinto em desconfortável gravidade zero. Sou examinado por uma médica, que pede para ter calma, que as radiografias podem enganar. Que o problema pode não ser no coração.

Relax
I'll need some information first
Just the basic facts
Can you show me where it hurts?

Chega o dr. Otaviano com seu estetoscópio. Sou obrigado a respirar fundo na ausência de pulmões. Ele confirma a pneumonia, mas prefere não falar sobre eventuais problemas cardíacos. Pergunta sobre minha rotina de trabalho e descobre um workaholic empedernido. Diz que o organismo enfraquece em situações de estresse. Prefere fazer novos exames. Diz que vai pedir a minha internação.

Há pouco tempo com o plano de saúde local, descobrimos que estamos em prazo de carência e não tenho direito à internação. Só posso ficar doente a partir de fevereiro de 2005. Vou ter que arcar com as despesas. O talão de cheques começa a perder folhas com o depósito da internação. Pela primeira vez na vida vou dormir num hospital por alguns dias.

Com a angústia dos enfermos, sou empurrado por corredores numa cadeira de rodas. No caminho, imagens sacras de Jesus Cristo, escapulários, quadros de São João de Deus e outros itens que podem servir de alívio para os católicos, mas a mim só lembram os cemitérios que costumava fotografar. Fotografei cemitérios em Roraima, no Amazonas, em São Paulo, em Ciudad Bolívar, em Porlamar, em Georgetown, mas nunca me dediquei ao projeto e boa parte do material se perdeu. Em Divinópolis moro em frente a um cemitério. Agora estou preso a uma instituição que tem imagens sacras suficientes para uma dúzia de igrejas. Um teste de resistência para ateus.

Quarto 132

As opções de internação eram três: pelo Sistema Único de Saúde, ficaria numa enfermaria com cinco leitos. Em regime particular, poderia escolher entre o apartamento único e o duplo. Escolho o duplo por razões óbvias: gosto de gente, de ouvir histórias. E o preço é menor.









A cadeira de rodas desliza pelos corredores e pára no interior do quarto 132, onde um leito já está ocupado por um rapaz de óculos sem nenhum pêlo no corpo. Ele me saúda com um sorriso: "tudo bom?". Respondo abanando a mão aberta. O rapaz faz quimioterapia. Muitas são as enfermidades reunidas num nosocômio.


É noite e busco o ar no leito 2. Uma agulha de silicone é instalada na parte superior do meu braço esquerdo e ficará ali pelos próximos seis dias. Estou preso a uma bolsa de soro fisiológico instalada a 1,80 metro de altura. Observo as gotas caírem, uma a uma.

'cause someday some weight's gonna come on your shoulders, babe,
It's gonna feel too heavy, it's gonna weigh on you,
It's gonna feel just like a ball and a chain

De manhã ela chega sorridente, me trata como filho. Leio seu nome no crachá. Irene. Gosto de ver Irene sorrir. "Quero ver Irene dar sua risada", digo. Ela ri. Conhece a música.

Estar ligado a uma bolsa de soro é como estar algemado. Não temos mobilidade. Não podemos dormir de bruços. Não podemos nos movimentar durante o sono. Ir ao banheiro é um sacrifício. Se a bolsa ficar numa posição pouco elevada, o sangue volta e ficamos com um fio vermelho ligado ao braço. Disgusting.

Seu João

A contagem de leucócitos no meu sangue havia explodido. Dos índices normais de 8,5 mil havia passado a quase 22 mil. O corpo combatia a infecção com um exército chinês de glóbulos brancos. Tenho pneumonia bacteriana, uma infecção forte. Por essa razão sou levado para outro quarto. Meu companheiro tem leucemia e está com a imunidade em baixa. Ofereço risco de contágio.

No quarto 119 está seu João, 84 anos, cinco pneumonias e um acidente vascular cerebral nos últimos quatro meses. Cego há dois anos pelo glaucoma e com Mal de Alzheimer, seu João dorme profundamente, sob efeito de Rivotril. Ao lado dele, uma pessoa que agora lhe é desconhecida, a filha Luzia faz uma bolsa com tampinhas de lata de refrigerante, "para passar o tempo".

Luzia separou-se há 18 anos e não quer mais saber de marido. Detestou o encontro às escuras que umas amigas armaram e diz que quer apenas se dedicar aos filhos e aos netos. E ao pai, que mora com ela num apartamento a poucas quadras do meu, no centro de Divinópolis. Tem acompanhado seu João numa peregrinação entre a casa e o hospital nos últimos meses.

- A última internação foi há 15 dias. Ele teve que voltar anteontem, porque piorou. É um sofrimento. Quem viu esse homem bom não imagina que ele tenha ficado assim. Não reconhece ninguém e não diz coisa com coisa. Precisa ficar amarrado à cama para não se jogar no chão.
Amanhece. Seu João dorme mais algumas horas até ser despertado para o café da manhã. Come de olhos fechados, na anestesia dos sedativos. Depois de algum tempo está completamente desperto, para me ajudar como poucos a recuperar o humor, tão necessário para o tratamento dar certo.

- O cachorro não presta, não, diz seu João.
- Que cachorro, papai?, pergunta Luzia.
- O cachorro é muito bravo. Não presta, não.

Me interesso pela história do cachorro. Luzia diz que há uns 20 anos ele deixou o cachorro no sítio e teve que ir à cidade. Quando voltou, o cão havia matado uma boa quantidade de galinhas e patos. Seu João pediu para alguém levá-lo antes que ele o matasse. "Ele mistura as coisas, é uma confusão".
Luzia sai para fumar. Seu João tenta se livrar os lençóis que lhe servem de amarras. Pede para que soltem as cordas. Digo a ele para ficar calmo, que é para o bem dele.

- Quem é?
- Sou o vizinho, seu João.

Seu João parece contrariado. O vizinho é personagem novo. Pergunta pela mulher que estava com ele, a filha que não reconhece mais. Digo que seu nome é Luzia, que ela é sua filha, que ele está num hospital. Seu João fica alguns segundos pensativo e depois começa a deslizar para fora da cama. Tento emendar uma conversa para que se acalme.

- E o cachorro, seu João?
- Não presta.
- Por quê?
- O cachorro não presta, não.

Luzia entra no quarto e na conversa. Pergunta o que ele pretende fazer com o cachorro. "Dá pra ele" (para mim), é a resposta. Morro de rir com a esperteza de Seu João, querendo se livrar do cachorro. Rir dói. O ar me falta. Seu João ainda fala algumas palavras desencontradas, todas com uma voz forte de homem do campo, plantador de café, criador de cavalos. Rio muito com tudo, pedindo desculpas à Luzia pela falta de respeito, mas agradecendo pela melhora no astral com as conversas de seu João.

À noite tenho sonhos cabulosos com experiências científicas em que a cobaia sou eu. Tento recobrar a lucidez, mas sou mantido em estado letárgico por médicos e enfermeiras macabros. Acordo suado e com dor no braço direito, onde está instalado o soro. Havia batido com força na agulha. Chamo a enfermeira e peço um analgésisco.

Ok (ok)
It's just a little pin-prick
There'll ne no more Ahhhhhh
But you may feel a little sick

Pela manhã, seu João está inspirado.

- A barriga tá ruim.
- Beba água, papai.
- Eu não caguei.
- Beba água que melhora.
- Se cagar, melhora?
- Sim, se cagar melhora.
- Mas eu não caguei hoje.

Novos ataques de riso e falta de ar. O dia passa com outros assuntos, como dinheiro ("eu pago todo mês"), lençóis presos às mãos ("solta essa corda aqui"), bichos de estimação ("esse cachorro não presta, não") e matemática ("Hum, dois, três, quatro") .

- Hum, dois, três, quatro.
- O que o senhor está contando papai?
- Hum, dois, três, quatro.
- O que é hum, dois, três quatro?
- Tem quatro ou cinco?
- Não sei do que o senhor está falando, papai.
- Ele é músico?, pergunto.
- Ele tocava acordeon. Como você sabe?
- Músicos racicionam em intervalos de quatro tempos.

A interlocutora agora é Graça, a outra filha, que faz revezamento com Luzia nos cuidados com o pai. Graça anda cansada e em tratamento, mas ajuda ao pai e a mim, quando necessito de mudança na posição da cama, beber água. Durante a noite tive uma crise de falta de ar e ela foi até a enfermaria buscar ajuda. Disseram-se para ficar tranqüilo, que eu estava tenso.

- Eu não estou tenso, minha cara. Estou com dor.
- Tome isto.

A pílula amarela em forma de triângulo faz efeito em pouco tempo, me livrando da sensação de estar pendurado num gancho de açogueiro pela omoplata esquerda. Passo o dia seguinte quase todo dormindo, com pequenos intervalos de lucidez. Seu João recebe alta e o quarto fica mais triste.
Num acesso de tosse, cuspo sangue. Como Álvares de Azevedo. Como Nélson Rodrigues. Como Proust. Dor bárbara no pulmão e braço direitos. Aviso a um enfermeiro, que avisa ao médico, que pede um eletrocardiograma de urgência. Enquanto a auxiliar de enfermagem Geralda prega eletrodos no meu peito gemo seguidamente. "Pode gemer?". "Pode, pode sim". 

Olho em transe para um aparelho ao lado do eletro, formado por uma caixa eletrônica de onde saem dois fios ligados a placas de metal, daquelas que se usam em paradas cardíacas. Como se chama mesmo? Desfibrilador? Quais são as vantagens e desvantagens de um desfibrilador? É vendido na TV? Volto sonolento.

Amanhece. Do corredor, ouço os passos curtos e apressados.
- A babá não pode vir hoje à noite. Vou ter que repor aula no fim de semana.
- O notebook já chegou?
- Não consegui falar com a Heloísa.
- Droga. Preciso escrever.
- Quer caneta e papel?
- Não sou desse tempo.

Já que não posso escrever, leio À sombra das raparigas em flor, que foi escrito por alguém em condições parecidas com as que me encontro. O engraçado em Proust é que sua falta de ar contrasta absurdamente com seus períodos gigantes, feitos para quem tem bastante fôlego. Vai ver que era essa a sua intenção: tirar-nos o fôlego. Preciso lembrar do que acontece aqui para escrever uma peça de teatro, penso.

No dia seguinte, barulho de martelos e tijolos partidos. Resolvo sair dali quando a obra ao lado entra em ritmo acelerado, com poeira de cimento e fumaça de cigarro entrando pela janela. Exijo minha retirada para outro quarto. Sou avisado de que só está disponível o 215. Mas nada pode ser pior que respirar poeira de concreto quando o pulmão direito está avariado e a ponto de petrificar-se.
Antes da mudança, sou levado para fazer um exame na máquina de bombear sangue. O Ecocardiograma com Doppler é um exame rápido e confiável. O resultado:

O ventrículo esquerdo apresenta dimensões normais. A espessura de suas paredes encontra-se dentro dos limites da normalidade. Sua função sistólica global encontra-se preservada. Ausência de déficits segmentares de contratilidade em repouco. A análise da função distólica do VE ao Doppler mostra padrão de relaxamento sistólico normal. O ventrículo direito apresenta tamanho e espessura de suas paredes normais, estando sua função sistólica global dentro da normalidade. O átrio esquerdo mostra tamanho normal. O átrio direito apresenta dimensões normais. Ausência de trombos intracavitátrios ao eco transtorácico. A valva mitral apresenta aspecto normal, estando sua abertura valvar preservada. Ausência de regurgitação mitral. A valva aórtica não apresenta alterações. O fluxo sistólico aórtico é normal. Ausência de regurgitação aórtica. A valva tricúspide tem aspecto morfológico normal. O fluxo pulmonar é laminar e de velocidade normal. Ausência de regurgitação pulmonar. Aorta descendente tem calibre normal. O pericárdio tem aspecto normal. Ausência de derrame pericárdico.
É, parece que está tudo em ordem.

Quarto 215

Se você quer saber como eu me sinto
Vá a um laboratório ou um labirinto
Nós somos as cobaias de Deus
Me tire dessa jaula
Desse hospital maquiavélico

Hoje fui até a entrada do hospital, lento como um nonagenário. Passei pelo guarda na entrada sem ser percebido. Na volta ele se surpreende comigo. Olha para meu braço, que já não está ligado ao soro mas conserva um escalpo para eventuais aplicações de antibióticos. Parece uma torneira ligada à veia radial.

 - Você é interno?, pergunta ele, olhando o escalpo.
- Não, isso é um piercing.

O Quarto 215 tem as mesmas medidas e o mesmo banheiro, mas lembra um carro que sai de fábrica sem nenhum dos opcionais. As visitas de enfermeiros são mais freqüentes e o nível de ruído, três vezes maior. Descubro que estou numa ala destinada a pacientes do SUS. Enfermarias lotadas, pessoas em estado terminal, gritos e gemidos me fazem desistir de um novo passeio, na minha primeira vez fora da cama em quatro dias.

O leito vazio à minha direita logo é ocupado por Seu Francisco. A esposa sai para buscar alguma coisa e lhe deixa sob os cuidados do amigo Paulo, sorridente e atencioso cidadão que me conta histórias de suas viagens a trabalho em grandes empreiteiras. Logo depois chega um outro colega de seu Francisco, que diz me reconhecer de algum lugar. Digo que trabalho na Fadom e ele garante que é de lá mesmo.

- Andei fazendo uns trabalhos na Faculdade de Direito. Deve ser de lá, eu não esqueço um rosto. Uma vez conheci um cara num serviço no interior de São Paulo. Quatorze anos depois, em Goiás, um sujeito me mostrou uma foto dele com outros homens. Eu disse: conheço esse aqui. E era verdade, era o mesmo sujeito que eu havia conhecido anos antes.

Seu Francisco teve derrame cerebral há alguns dias. É diabético e de vez em quando desaparece de Pitangui, onde mora. É encontrado em Pará de Minas, Divinópolis e outras cidades onde possui propriedades. Sua mulher, dona Aparecida, adora contar histórias sobre os bichos do lugar.

- A gente mora num sítio, né, e lá aparece muita cobra. Tem uma mulher que eu conheço que mata cobra pisoteando. Um dia a gente tava fazendo caminhada pela estrada quando vimos aquele gato bonito. Eu disse pra minha amiga: vamos pegar pra gente? Era um gato preto, tão bonito, tão forte. Quando chegamos perto aquilo abriu os dentes pra gente que saímos correndo. Êta trem brabo, acho que era onça preta. Mas nunca vi bicho pra correr igual veado. Tava fazendo caminhada com minha amiga quando a gente viu aquele veadinho. Decidimos pegar, mas quando a gente chegou perto ele começou a correr e a pular. Nunca vi um trem tão rápido na minha vida, conta, morrendo de rir.

A transferência de Seu Francisco para um apartamento único acontece logo. Resolvo dar um novo passeio pelo corredor, mas volto em segundos e resolvo pedir minha remoção dali imediatamente. O astral definitivamente não ajuda. O horror. O horror. Sou levado de volta ao 132.

Ronan

- Então você que é meu novo inquilino?, pergunta o sorridente Ronan, deitado no leito que eu ocupara antes, ao lado da mulher e da filha.

- É, mas eu estava aqui antes.
- Mas não comprou e o proprietário agora sou eu.
- Muito prazer, Avery.
- Ronan.

O empresário Ronan cresceu na roça e tem enfrentado um ano difícil. No início do ano, estava trabalhando no campo quando um funcionário teve a perna partida por uma máquina agrícola. Teve que carregar o rapaz até o hospital. A perna foi amputada acima do joelho. Três meses depois teve vômito e diarréia durante 10 dias seguidos e perdeu 15 quilos. Achou que estava com câncer. Curado, voltou pra casa.

No mesmo dia em que eu era internado, Ronan dava entrada na emergência, picado por uma cobra, provavelmente Urutu. A remoção foi rápida e ele não corre risco de vida, mas os resultados são assustadores. A parte da perna picada pela cobra iniciou um processo de necrose, combatido a tempo pelos médicos. O veneno subiu pela corrente sanguínea e provocou hemorragias no polegar da mão direita e em toda a parte exterior do braço direito. Os poros abriram e suaram sangue. A pele queimou e levará vários dias até ser trocada por uma nova.

- A dor é horrível. Ainda tenho 15 por cento de veneno no sangue, mas já estou bem melhor. O problema é essa pele queimada.

Vai ter que sair naturalmente, Ronan, como pele de cobra.
À noite passo novos sufocamentos e Ronan sugere deixar as janelas abertas. Melhorei. Na manhã seguinte ele deixa o hospital contando piadas e me desejando melhoras. Se esta fosse a Montanha Mágica e eu me chamasse Hans Castorp, ele certamente atenderia por Sr. Setembrini.

Home
Home again
I like to be here when i can

Ronan é substituído por Jason, estudante de Marketing que veio fazer cirurgia para a extração de uma fístula. Na sua volta da sala de cirurgia estou me despedindo da internação. Livre, finalmente.

Olho a cidade pela janela do carro e me sinto bem, exceto pela sensação de estar pendurado num gancho de açogueiro pela omoplata direita. Os dentes amarelados pelos antibióticos, alguns pelos do braço arrancados e um hálito desagradável completam o quadro. A doença não foi completamente debelada. O tratamento continua em casa por mais uma semana.